O que a API do seu software de faturação deixa mesmo fazer
Antes de prometer que dois sistemas vão falar um com o outro, vale a pena saber o que a API do lado de lá permite. Fomos ler a documentação dos oito mais usados em Portugal.
“Isso liga-se ao nosso software de faturação?”
A resposta certa quase nunca é sim ou não. É “depende do plano que tem, e de aceitar que a informação chega com atraso”.
Fomos ler a documentação oficial dos oito programas mais usados por PME em Portugal para perceber o que cada API permite mesmo. Há aqui três surpresas que mudam orçamentos.
Verificado a 6 de setembro de 2026 na documentação de cada fornecedor. Planos e preços mudam; confirme antes de contratar.
Primeira surpresa: a API costuma estar no plano de cima
Esta é a que apanha mais gente, e não está na documentação de programadores de nenhum deles. Está na tabela de preços, noutra página.
No Moloni, a API exige o plano Flex, a 10,90 € por mês. O plano base não a tem.
No Vendus, a API exige igualmente o plano Flex, a 10,83 € por mês em faturação anual, e é por ponto de venda.
No PHC GO é mais do que um plano: é um acordo de programador assinado, um identificador de aplicação registado na instalação do cliente, e packs de pedidos pagos. O escalão Grow traz um pack de 2.000 pedidos por mês. Esgotado o pack sem comprar mais, a comunicação por API é suspensa.
O InvoiceXpress é a exceção limpa: a API está em todos os planos, incluindo o mais barato.
Se está a orçamentar uma integração, some isto antes: pode haver uma subida de escalão do lado do software que ninguém contou.
Segunda surpresa: quase nenhum avisa quando alguma coisa acontece
Um webhook é o software avisar o seu sistema no momento em que algo acontece. Sem webhook, a única alternativa é perguntar de tempos a tempos se mudou alguma coisa.
Moloni, InvoiceXpress e TOConline não têm webhooks documentados. O que existe é consulta com filtros: perguntar o que mudou desde uma data.
A consequência é prática e deve ser dita ao cliente antes de começar: não há tempo real. Há um intervalo, e esse intervalo é uma decisão. De cinco em cinco minutos custa mais pedidos e mais servidor; de hora a hora é mais barato e pode não chegar para o que se quer fazer.
Prometer sincronização instantânea com um destes é prometer o que a ferramenta do lado de lá não permite.
Terceira surpresa: nem tudo o que se chama API é uma API web
Duas armadilhas caras, e ambas mudam a arquitetura de um projeto inteiro.
O PHC CS expõe um serviço SOAP com um único método, chamado RunCode. Não há endpoints de faturas ou de clientes. Para obter seja o que for, é preciso escrever Scripts dentro da framework do PHC e chamá-los por ali. É trabalho de especialista de PHC, não de quem integra APIs REST.
O Sage vendido em Portugal é o caso mais delicado. Existe um portal global de programadores da Sage, com uma API de contabilidade bem documentada, e ela não cobre os produtos portugueses: a documentação oficial diz que suporta Reino Unido, Irlanda e Canadá. O único produto Sage com API pública que serve Portugal é o Sage Active, e a API dele é GraphQL, com Portugal a partilhar ambiente com Espanha.
Para o Sage 50 português a integração existe, mas é local: uma API COM e .NET, publicada no GitHub oficial da Sage Portugal, que obriga a ter a aplicação instalada na mesma máquina Windows. Não há ligação de nuvem para nuvem. Isto significa um computador ligado, algures, a fazer de ponte.
O panorama, resumido
| Software | Tipo de API | Autenticação | Avisa em tempo real |
|---|---|---|---|
| Cegid PRIMAVERA V10 | REST | OAuth 2.0 | por confirmar |
| Jasmin | REST | OAuth 2.0 | por confirmar |
| PHC CS | SOAP, método único | utilizador e senha | não |
| PHC GO | HTTP, packs pagos | identificador de aplicação | não documentado |
| Moloni | HTTP, só POST | OAuth 2.0 | não |
| InvoiceXpress | REST | chave na query string | não |
| Vendus | REST | chave de API | não documentado |
| TOConline | REST, JSON:API | OAuth 2.0 | não |
| Sage Active | GraphQL | OAuth 2.0 e chave | não documentado |
| Sage 50 PT | local, COM e .NET | não aplicável | não aplicável |
Nota para quem liga o PRIMAVERA e o PHC: as duas marcas são hoje da Cegid, e o portal de programadores da PRIMAVERA passou a estar no domínio da Cegid. Documentação antiga que aponte para o domínio antigo continua a funcionar por redirecionamento, mas já não é o endereço.
Nota de segurança sobre o InvoiceXpress: a chave viaja na query string do endereço. Query strings ficam em registos de servidores e em históricos. Se integrar, trate essa chave como uma senha e não a deixe entrar num registo qualquer.
Nota sobre o TOConline: as credenciais não se pedem a um portal de programadores, geram-se dentro do produto, em Empresa, Definições, Dados API, e chegam por um link válido durante 72 horas. Um pormenor que evita uma semana de espera: a leitura funciona mesmo com a licença de gestão comercial expirada, a escrita não.
O que perguntar antes de dizer que sim
Quando alguém lhe disser que integra com o seu software de faturação, três perguntas resolvem quase tudo:
Em que plano é que a API está incluída? Se a resposta for vaga, é porque há uma subida de escalão pelo meio.
Com que frequência é que a informação vem? Se não houver webhooks, “em tempo real” é falso, e o intervalo tem de ser uma decisão consciente.
Quem é o dono das credenciais? Nos casos em que a chave é gerada dentro do produto do cliente, é o cliente que a controla, e isso é bom: pode retirá-la quando quiser, sem depender de ninguém.
Nada disto impede uma integração. Impede uma integração orçamentada em cima de pressupostos errados, que é onde estes projetos costumam descarrilar. Sobre a decisão anterior a esta, qual dos sistemas manda quando os dados divergem, escrevemos em sistemas que não falam entre si.