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Automação  ·  6 setembro 2026  ·  7 min de leitura

n8n: o que é, o que a licença deixa fazer, e quando compensa

Metade do que se lê sobre n8n está errado em dois pontos que custam dinheiro: a licença e a unidade de faturação. Este artigo trata os dois com a fonte à frente.

O n8n aparece em todas as conversas sobre automação desde há dois anos, e quase sempre com duas afirmações erradas em cima: que é open source e que é grátis. Nenhuma das duas é verdade tal como é dita, e as duas têm consequências práticas para quem decide.

Vale a pena arrumar isto, porque a ferramenta é boa e o erro não está nela.

Todos os valores e regras deste artigo foram confirmados na documentação oficial a 6 de setembro de 2026. Preços e licenças de software mudam depressa; se estiver a ler isto muito depois dessa data, confirme antes de decidir.

O que é, sem entusiasmo

O n8n é uma ferramenta de automação de fluxos de trabalho num editor visual: liga aplicações, serviços e modelos de IA por nós, e deixa escrever JavaScript ou Python quando os nós não chegam. É desenvolvido pela n8n GmbH, uma empresa alemã sediada em Berlim, e foi lançado publicamente em 2019.

Na prática substitui aquilo que muita gente faz à mão entre separadores: ir buscar uma coisa a um sítio, transformá-la, e pô-la noutro.

Não é open source, e isso importa

O n8n é distribuído sob a Sustainable Use License, um modelo a que a própria empresa chama fair-code. O código está à vista, o que não é o mesmo que ser software livre.

A licença tem três limitações, e a primeira é a que decide tudo:

You may use or modify the software only for your own internal business purposes or for non-commercial or personal use.

O critério que a n8n publica para separar o que pode do que não pode é este: tudo é permitido, exceto vender um produto, serviço ou módulo cujo valor derive inteira ou substancialmente das funcionalidades do n8n.

Traduzido para casos reais, e todos estes exemplos estão escritos na documentação oficial:

Pode, sem pagar licença nenhuma, instalar o n8n num servidor da sua empresa e usá-lo para o trabalho da sua empresa. Sincronizar o CRM com uma base de dados interna é o exemplo que a própria n8n dá.

Pode contratar alguém para lhe construir os fluxos, instalar e manter a instância. Prestar serviços de consultoria em n8n está expressamente permitido, e foi essa a razão de ser da licença atual.

Não pode alojar o n8n e cobrar a terceiros pelo acesso. Nem pôr-lhe a sua marca por cima e vendê-lo como produto seu.

Há ainda um caso intermédio que apanha muita gente desprevenida: se um fornecedor alojar os fluxos e as credenciais dos clientes dele na instância dele, isso exige licença Enterprise. Instalar a instância na casa do cliente, não. É uma diferença de arquitetura que se transforma numa diferença de custo.

Se alguém lhe vender “n8n como serviço” com marca própria e preço mensal, vale a pena perguntar que licença tem.

A conta que realmente muda a fatura

Esta é a parte onde o n8n ganha, e ganha por uma razão estrutural que quase nenhum artigo explica: a unidade cobrada não é a mesma.

Ferramenta Unidade O que conta
n8n execução uma corrida do fluxo inteiro, independentemente de ter 3 ou 30 passos
Make crédito cada módulo que corre
Zapier task cada ação bem sucedida

Um fluxo de cinco passos que corre mil vezes por mês gasta mil execuções no n8n. O mesmo fluxo no Make gasta perto de cinco mil créditos, e no Zapier perto de quatro mil tasks. Não é uma diferença de preço por unidade, é uma diferença de quantas unidades a mesma automação consome.

Reparo de vocabulário, porque ainda circula muito texto desatualizado: o Make deixou de contar “operações” e passou a contar créditos, com conversão de um para um. Quem escrever “operações do Make” está a usar um termo que a própria Make descontinuou.

Nos preços do n8n Cloud, com faturação anual: 20 € por mês para 2.500 execuções, 50 € por mês para 10.000, e 667 € por mês no plano Business com 40.000. Todos os planos incluem utilizadores, fluxos e passos ilimitados, o que também é recente: até agosto de 2025 o preço dependia do número de fluxos ativos, e há tutoriais na internet a explicar limites que já não existem.

O n8n Cloud não tem plano gratuito. Tem um ensaio de mil execuções. O gratuito do n8n é outra coisa, e é o ponto seguinte.

Self-hosted não quer dizer grátis

A licença é gratuita. O servidor não é.

A documentação pede no mínimo 4 GB de RAM e 2 vCPU, e recomenda PostgreSQL em vez do SQLite para qualquer instância de produção com mais do que um punhado de fluxos a correr o dia inteiro. Some a isso alguém que faça as atualizações e trate das cópias de segurança.

Para uma PME isto significa um VPS pago e uma pessoa responsável. Continua a ser barato face às alternativas, e continua a não ser zero.

A edição Community tem quase tudo. O que lhe falta, e que interessa mesmo a uma empresa com equipa, é a partilha de fluxos e credenciais: sem ela, só o dono da instância e quem criou cada fluxo lhe conseguem tocar. Faltam também SSO, ambientes separados de teste e produção, controlo de versões por Git e envio de registos para sistemas externos.

Se a automação da sua empresa vai ficar dependente de uma pessoa que criou tudo na conta dela, a limitação da partilha deixa de ser um detalhe de licenciamento e passa a ser risco operacional.

Há uma Registered Community edition gratuita: basta registar o email para receber uma chave, e desbloqueia pastas e algumas ferramentas de depuração. Continua a custar zero.

Onde ficam os dados

Para quem tem de responder a perguntas de RGPD, a resposta honesta é esta.

A n8n escreve, na página de segurança, que o hardware e os dados do Cloud estão atualmente alojados na União Europeia, em infraestrutura Microsoft Azure, com cifragem em repouso. Existe um contrato de subcontratação pré-assinado para descarregar e devolver assinado.

Duas ressalvas que quem publica sobre isto costuma saltar. A palavra é atualmente: não há seletor de região, nem página de residência de dados, nem compromisso público de que assim continue. E a afirmação muito repetida de que os dados do n8n Cloud estão em Frankfurt e na AWS está simplesmente errada; a fonte oficial diz União Europeia e Azure.

Em self-hosted a pergunta desaparece, porque o servidor é seu. Escolhe onde fica, e não há subcontratante de automação nenhum no meio. Isso é uma consequência da arquitetura, não um certificado que o n8n lhe passa.

Quando compensa

A regra que usamos, e que evita a maior parte das discussões:

Se são dois ou três fluxos simples e ninguém na empresa quer saber de servidores, o Cloud paga-se sozinho. Vinte euros por mês custa menos do que uma tarde a discutir alojamento.

Se são muitos fluxos com muitos passos, o self-hosted ganha por larga margem, porque é exatamente aí que a diferença entre execução e passo se acumula. Um fluxo com trinta passos custa o mesmo que um com três.

Se os dados não podem sair de casa, self-hosted não é preferência, é requisito.

E se o problema se resolve com uma regra escrita dentro do sistema que já tem, não use n8n nenhum. Continua a valer o que escrevemos sobre onde a IA e a automação ajudam mesmo uma PME: a ferramenta mais barata que resolve o problema é quase sempre a certa, e às vezes é uma configuração que já pagou.

Duas coisas a saber antes de instalar

Em dezembro de 2025 saiu o n8n 2.0, e traz alterações que partem instalações antigas. O nó de código passou a correr isolado e sem acesso às variáveis de ambiente. O MySQL e o MariaDB deixaram de ser suportados como base de dados: quem os usa tem de migrar para PostgreSQL antes de atualizar. A opção de túnel foi removida.

E a documentação foi reorganizada, portanto metade das hiperligações em tutoriais de 2024 e 2025 dá erro. Se seguir um guia antigo e nada bater certo, é provavelmente isso.

O resumo

O n8n é uma boa ferramenta com uma licença que se percebe mal e um modelo de faturação que trabalha a favor de quem tem fluxos longos. Não é open source, não é grátis se contar o servidor, e não pode ser revendido com outra marca.

Nada disto é motivo para não o usar. É motivo para o escolher com a conta feita.

AJ Alexandre JaquesOficina Studio · Montijo, Portugal

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